04/10/2025

Magia


"Uma vida sem dor é uma vida sem amor" 

Sentencia o poeta em uma das muitas plaquetas postas nas casinhas 

Casinhas de um lugar onde o tempo tem preguiça 

Onde o rio é vermelho e inspirava Aninha 

Rio com sede... mas a fonte do porão ainda jorra 

Porão de Ana... de Maria 

Maria de Goiás, de Cora, Maria que virou boneca 

De um lugar onde a Lua é mais bonita 

Onde o coreto da velha praça vende sorvete 

Saboreado por moças pudicas e jovens Senhoras 

Todas fiéis ao chamado do sino 

Sino que badala de verdade na torre da igreja  

Bela, neogótica e desejosa de tocar o céu 

Céu do Cerrado, sofrido e resiliente 

Céu de um lugar onde o barroco impera 

Onde as portas das casinhas ficam abertas 

Onde a campainha é um mero "ô de casa" pronunciado já à soleira 

Onde a saudação usual é acompanhada de um pronunciado "cumé que cê tá?" 

Em um lugar que emana amor, poesia e respeito 

Onde de três em três casinhas há uma plaquinha 

Se não com poesia, com reverência ao antepassado morador vilaboense 

Lugar onde o mero caminhar inspira 

Onde a gentil guia clama "me olhe nos olhos, tenho uma história a contar..." 

E te pede: "debruce na janela, olhe o rio e sinta a inspiração de Aninha" 

Aninha que pedia a benção ao "vô rio" 

Aninha cujos doces ainda podem ser provados nas casinhas das tias 

Tias de um lugar maravilhoso 

Onde nas ruas há geladeiras  

A guardar e destinar livros aos seus  

Onde o Parque, a fonte e a Rua são cariocas 

Lugar onde o cruzeiro no alto do morro brilha tanto quanto a Lua  

Morro de trilha difícil sob um Sol de 40 e de cruzes a demarcar etapas com números romanos 

No lugar mais lindo e amável já visitado por este contumaz viajante 

Morro de Ana, terra de Cora Coralina 

E se é verdade que "uma vida sem dor é uma vida sem amor" 

Também o é um indagação gravada em outra plaquinha: 

"Pode viver satisfeito um coração sem amor ?"


02/07/2025

Viver

 

O que é isso afinal?

Contar as horas talvez?

Desfrutar delas?

Amar?

 

Sei lá...

Difícil traduzir...

Palavra tão pequena.

Significado tão grande.

 

Grande mesmo?

Como assim?

O que é viver?

A quem perguntar?

 

Talvez só os mortos saibam.

 

Mas...

 

O que é morrer?

 


01/08/2023

Caras...

Há caras com quem esbarramos na vida que acabam por ser não apenas inesquecíveis, mas verdadeiramente parte de nossas vidas.

Luiz foi um desses caras...

Um autêntico subversivo! 

Sempre inconformado com a realidade deletéria que envolvia (e ainda permeia) o cotidiano do exercício do mister profissional dos militares de polícia no Rio de Janeiro.

Inconformado com os contornos quase culturais da corrupção fluminense.

Inconformado e sempre disposto a remar contra a corrente.

Luiz Alexandre foi (e ainda é, claro) um desses caras.

Encerrando precocemente a carreira, ainda como jovem Major, por não desejar se submeter e quedar às duras e injustas circunstâncias do momento, Luiz deixou o serviço ativo na Polícia Militar do RJ.

Trilhando, na reserva, a vida acadêmica como cientista político Luiz em nada mudou...

Luiz se manteve subversivo!

E assim o foi até na morte...

Contrariou as estatísticas e se foi cedo... 

Demasiado cedo...

Desencarnou "antes da hora"...

Em tempos de "farinha pouca, meu pirão primeiro" (vide a quebra de paridade entre ativos e inativos/pensionistas no meio militar fluminense), o Major Luiz Alexandre foi e continua a ser um paradigma de probidade a ser seguido.

Minha continência e meu até breve a você Luiz Alexandre.

04/07/2022

Sou suspeito!

Alvorecer da década de 1990...

Era eu Aspirante e estava na ala do Regimento quando testemunhei o SCmt do BPChq, TC Wander de Medeiros, determinar ao "Brigada" a imediata adequação das escalas à Lei 1900/91 (*).

_ "Coronel", do que se trata? - Indaguei.

_ É a lei do Larangeira... Sabe como fazer... Ajuda os deputados na votação de seus projetos e assim consegue aprovar suas próprias iniciativas em prol da PM... A tropa está em festa... As escalas serão alteradas e agora haverá limite de carga horária semanal, jornada diária e até pagamento de hora extra... Ele é muito bom!

Eu sabia que ele era deputado e que havia encerrado a carreira ativa no Comando do 9o Btl, mas em minha ignorância e alienação de jovem recém egresso de três anos de internato não fazia ideia dos traços de personalidade de tal militar de polícia e, naquele momento, político eleito.

Os anos passaram... Com eles e por um desses "acasos" da vida veio a grata satisfação de poder privar de contato relativamente próximo com tal ser humano.

E que ser humano!

Não raro e já saudoso da presença física do Cel Wander, recebia dele não só conselhos, mas ajuda franca e balsâmica nos complicados momentos profissionais vivenciados em 2007/2008... Momentos em que boa parte do ideário que nos movia tinha origem em iniciativas de um certo militar deputado... Lá da já então distante década de 1990...

Que honra poder conversar com ele e testemunhar o quão modesto, inteligente, coerente e, sobretudo, bem intencionado é.

Um sonhador? Por certo; mas não só isso...

Um sonhador que quando teve chance seguiu seus sonhos e fez a diferença. Fez acontecer!

Pois é... Sou suspeito...

Mas por uma questão de honra, coerência e gratidão brado a quem desejar ouvir que o que se apresenta não é a mera oportunidade de eleger para o governo do RJ um integrante da PM...

É muito mais do que isso!

Temos a chance de eleger Emir Campos Larangeira.

Rio, 04/07/2022.

Wanderby B. de Medeiros


(*) https://gov-rj.jusbrasil.com.br/legislacao/90879/lei-1900-91

O mesmo governador que sancionou a lei buscou em seguida e com sucesso o STF para afastar sua vigência.

03/05/2022

Seu Amauri

Manhã de domingo.

Bonita manhã de outono carioca.

Contemplo a bela paisagem e os gatos de rua que a integram...

Repentinamente um Sr. trajando bermuda, camisa regata e boné indaga:

_ Pode bater uma foto minha?

_ Sim Sr. Com certeza - Respondo.

_ Em pé ou deitada? Como o Sr. prefere?

_ Tanto faz meu jovem (sic)...

_ Prefere ao lado da bicicleta mesmo? - Torno a indagar.

_ Tá de brincadeira né?! - Diz ele sorrindo ao mesmo tempo em que se afasta três ou quatro passos da mesma.

Foto batida e a conversa começa a brotar fluida...

_ Você é daqui mesmo?

_ Não Sr. mas costumo pedalar por essas bandas vez ou outra... E o Sr?

_ Faz mais de cinquenta anos que moro aqui...

_ Adoro pescar sabe? 

_ Ano que vem vou pelo 23º ano seguido pescar no Pantanal... É meio como um vício, mas gosto muito mesmo... Dessa vez vou com meu filho... Ele têm 67 anos e está meio baqueado, mas acho que consegue me acompanhar... Já o desafiei!

_ Me perdoe, mas qual é a idade do Sr? - Indago.

_ Tenho 94 anos!

_ Estou impressionado com a vitalidade do Sr. Está muito bem para a idade que tem. Espero conseguir avançar de forma ao menos semelhante...

_ É rapaz, as pessoas costumam se conscientizar de que precisam se preparar para a velhice tarde demais... Geralmente, após um grande susto... Eu fiz diferente!

Nos despedimos e ele começa a se afastar...

E retorna...

Deixando cair uma lágrima e com a voz embargada fala um pouco da recente perda da companheira e enaltece o quanto ela aturou seus percalços ao longo da caminhada...

_ A vida continua Seu Amauri... Para o Sr. e para ela... - Ouso pontuar.

Ele me estende a mão e eu penso por um segundo e perguntar o que ele, com a autoridade de seus lúcidos e plenos 94 anos, sugeriria a mim, mero "garoto" de 50...

Mas nada indago... 

Não era necessário... 

A resposta já havia sido dada!

Aperto sua mão; digo da felicidade e do aprendizado proporcionados por aquele ligeiro encontro; agradeço...

Oferto-lhe uma continência!

_ A gente se vê por aí garoto... 

_ Espero que sim...

_ Seu Amauri!

29/03/2022

Somos os últimos!


Ingressamos na então Escola de Formação de Oficiais (EsFO) da PMERJ no dia 29 de março do último ano da década de 1980.

Na última turma formada e comandada apenas por homens.

Na última turma submetida a rigores e reprimendas físicas e morais não só inconcebíveis nos dias de hoje, mas cuja brusca e necessária atenuação teve início, para nossa perplexidade, já no ano seguinte com a mudança de governo e a salutar retomada do ingresso feminino.

E somos, ouso crer, a última turma a não apenas não refutar os excessos de toda ordem a que era submetida, mas a se orgulhar deles. Afinal, só os fracos agiriam de forma diferente...

_ "Como se forja o ferro frio?"

_ Com calor e pancada (a palavra era outra) Sr.

_ "Quais são seus direitos cadete?"

_ O direito de não ter direitos e o direito de não reclamar dos meus direitos Sr.

Não era retórica! Nunca foi!

Certa? Errada?

De forma insuspeita - era só um moleque de 17 anos, filho de Oficial Superior, e nunca antes submetido a nada sequer parecido - me atrevo a dizer que a formação foi compatível com sua época e com a conjuntura política vigente.

Somos os últimos daquele inesquecível tempo perdido...

02/02/2022

Atualização quanto às medidas judiciais da Associação de Oficiais Militares Estaduais do RJ - AME/RJ, frente à singular afronta aos direitos dos militares e pensionistas do RJ

Afronta materializada na mesma lei (*) que garantiu remuneração mensal líquida superior a R$ 34.000,00 (trinta e quatro mil reais) a integrantes da cúpula da Polícia Militar, em flagrante afronta,  dentre outras coisas, ao teto remuneratório constitucional vigente no Brasil.



(*) Lei n.º 5.181/2021 ("Sistema de Proteção Social dos Militares do RJ")

17/01/2022

16/01/2022

Pode haver pior mentira do que a emanada da mesma fonte da verdade que ela busca refutar?

 



Sim!

A que ainda não precisou ser contada...

TETO CONSTITUCIONAL REMUNERATÓRIO
Constituição do Estado do RJ

"Art. 77 - A administração pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes do Estado e dos Municípios, obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, interesse coletivo e, também, ao seguinte:
...  
XIII - a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da administração (...) e os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos Desembargadores do Tribunal de Justiça, nos termos do § 12 do art. 37 da Constituição da República Federativa do Brasil;" (grifei).

"SISTEMA DE PROTEÇÃO SOCIAL DOS MILITARES DO RJ"
Lei n.º 9.537/21

"Art. 44 No computo do limite constitucional remuneratório dos militares do Estado será excluída eventual remuneração de cargo em comissão." (sic).


Mas... falemos de paridade!


"Paridade é sobre soldo... A paridade remuneratória entre policiais e bombeiros militares ativos e inativos/pensionistas não foi quebrada..."


Vejamos:


REMUNERAÇÃO
Lei RJ n.º 279/79

QUANTITATIVO mensal em dinheiro devido aos militares, resultante do somatório de soldo, gratificações e mais parcelas remuneratórias. (art. 3º, 65 e 68).

PARIDADE
Decreto Lei n.º 667/69

"Art. 24-A. Observado o disposto nos arts. 24-F e 24-G deste Decreto-Lei, aplicam-se aos militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios as seguintes normas gerais relativas à inatividade: 
...
III - a remuneração na inatividade é irredutível e deve ser revista automaticamente na mesma data da revisão da remuneração dos militares da ativa, para preservar o valor equivalente à remuneração do militar da ativa do correspondente posto ou graduação; e (Incluído pela Lei nº 13.954, de 2019)".

MATEMÁTICA
Elementar

2 + 2 =4
4 > 3
3 < 4
11 x 4 = 44

MORAL
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

"Que procede com justiça.
Correto, decente, honesto, íntegro, justo, probo.".


Sem mais! 


11/01/2022

E agora governador Cláudio Castro?

Tenho certeza de que já percebeu que errou!

Afinal, não poderia esperar nada diferente de alguém que além de se dizer temente a Deus, tem formação jurídica. 

Preciso acreditar que houve, senão também uma violação cristã consciente, um erro de cálculo sobre a opção de violar garantia estabelecida em lei federal para agradar, talvez até nem tão conscientemente assim, mais a alguns (e muito mais a alguns poucos) em detrimento da qualidade de vida de dezenas de milhares de outros, muitos, sequelados.

E agora que sabe que todos já se deram conta do que ocorreu? 

Percebe que a pobreza legal e ética da quebra da paridade entre ativos e inativos/pensionistas acaba se amplificando com o não veto ao dispositivo inserido no texto por emenda parlamentar para garantir que militares ocupantes de cargos em comissão, e.g., secretários de estado da PM e do Corpo de Bombeiros Militar, possam perceber remuneração líquida maior do que o limite constitucional imposto a todos, militares ou não? De quem foi a ideia?

Consegue perceber que o silêncio daqueles que foram beneficiados (ao menos em montante bem menor do que alguns poucos) em detrimento dos que os antecederam no serviço ativo (a exceção de alguns muito poucos destes) denota maior constrangimento do que regozijo?

Sua gestão inovou! 

Antes dela... de Pezão a Brizola, passando por Sérgio Cabral, Benedita, Garotinho... Witzel, nenhum governante quebrou a paridade entre militares ativos e inativos... Alguns certamente tentaram, mas não encontraram eco e, menos ainda, ativa voluntariedade interna corporis para a promoção de tamanho golpe contra militares (não raro, sequelados), suas viúvas, filhos e pais idosos desprovidos de renda.

E o momento em que seu governo praticou tal ato o torna ainda mais singular governador Cláudio Castro.

Como espera justificar o paradoxo de haver utilizado a "Lei de Proteção Social dos Militares do RJ", cujos princípios gerais relacionados a inatividade e pensões deveriam ser simétricos aos previstos para os militares das Forças Armadas (conforme alteração legal oriunda da lei federal n.º 13.954/2019, mesma lei da qual resultou a lei de proteção social do RJ) para quebrar, talvez, o mais importante fundamento de tal simetria de tratamento?

Como pretende fundamentar o fato de haver ignorado a garantia legal de que a revisão de remuneração de militares inativos deve ocorrer concomitante e automaticamente à revisão de remuneração de militares ativos? Creio que saiba que remuneração de militar, ressalvado modelo não adotado no RJ (subsídio), abrange não apenas soldo, mas este e gratificações, como, por exemplo, a "Gratificação de Risco de Atividade Militar-GRAM". Alguém lhe esclareceu quanto a isso?

Como acredita que "sua" Procuradoria Geral do Estado poderá se contrapor ao fato de que os mesmos militares inativos excluídos dessa "festa" (nem tão pobre assim) o foram a despeito de recolherem, desde 2020 e com base em alterações introduzidas no Decreto Lei 667/69 pelo art. 25 da lei federal supra, contribuição militar em parâmetros rigorosamente idênticos aos militares ativos; todos, bem como suas pensionistas, social e expressamente protegidos da quebra de paridade em razão de mandamento legal objeto do mesmo art. 25 da citada lei federal? Aos inativos apenas o ônus da lei?

A propósito governador Cláudio Castro, é importante frisar que a citada lei federal também inovou ao estabelecer competência da União para verificar o cumprimento (ou não) das normas gerais de inatividade e pensões em sede de legislação específica dos entes federados (parágrafo único do art. 24-D do Decreto Lei 667/69) e que o governo federal já disciplinou o exercício de tal competência através de normativa própria do Ministério da Economia.

Acredita que o presidente Jair Bolsonaro, cujas relações políticas e mesmo pessoais com os militares do RJ parecem ser notórias, permanecerá inerte diante da ilegalidade praticada? Crê que o mesmo presidente não determinará ao seu Ministro da Economia (creio que também já regressou de férias) a adoção de providências específicas em sua esfera de atribuições?

Será?!

Sendo assim governador Cláudio Castro, acreditando que apenas posso presumir os motivos pelos quais não lhe foi ofertado o devido assessoramento técnico para a tomada de decisão relacionada à presente matéria, cujos reflexos se prolongam para além das existências físicas dos atuais militares inativos, recaindo sobre suas viúvas e mais dependentes, apelo não só ao seu senso de dever legal, mas ao sentimento cristão que ostenta para sugerir que se permita compreender não apenas que errou, mas que deve reparar integralmente o erro.

Governador Cláudio Castro, demonstre altivez pedindo desculpas, promovendo a alteração da conjuntura da qual emanou o cenário atual, exonerando os secretários de Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar, e enviando projeto de lei restabelecendo a legalidade em relação à paridade que deve nortear a percepção da gratificação de risco de atividade militar por militares ativos e inativos do RJ.

Rio de Janeiro, 11/01/2022.

Wanderby Braga de Medeiros

20/11/2021

Consciência...

Dia 20 de novembro e me vem à mente a imagem da Soldado Fabiana.

Fabiana que entrou para a história não "apenas" como mais um(a) integrante da Polícia Militar assassinado(a) no desempenho de suas funções.

Fabiana foi o primeiro caso de morte de PM em Unidade de Polícia Pacificadora!

Um verdadeiro choque à época e com repercussão internacional. 

Raro momento em que a morte em serviço de integrante da PM do RJ gerou tamanho estranhamento.

Sim, já faz algum tempo e hoje em dia o "sonho" da pacificação não é muito mais ou muito menos do que a realidade que o antecedia.

As coisas seguem como sempre seguiram... 

As coisas são como são?

Algo mudou de lá para cá?

Alguém se lembra daquela ainda jovem mulher, nascida no interior do RJ e que envergava a farda da PM pacificadora na UPP Nova Brasília? 

Seu homicídio foi elucidado?

Quem se importa?

Alguém ainda se lembra da Soldado Fabiana?


22/03/2021

Como escapar de nós mesmos?

A reflexão é breve; talvez mais do que deveria, mas ainda assim o é (ou pretende ser).

Como chegamos ao ponto em que nos achamos? E como saímos dele?

Talvez o caminho, tal qual a virtude, esteja realmente no meio.

Os extremismos que têm nos habitado trazem no pacote a guerra aos seus opostos, mesmo quando não são de fato tão extremos e opostos quanto parecem ou como se deseja fazer parecer ser.

E interessa pontuar que para além dos fantasmas reais ou não que alimentam o desejo de guerra parece haver e em não poucas vertentes identidade de condutas, para acertos e desacertos, independentemente do “lado” de quem empunha a caneta e desfralda a bandeira.

Claro que o governo atual, democraticamente protagonizado por militares (talvez “como nunca antes na história do país”), tem se mostrado funesto e de certa forma até desavergonhado de suas flagrantes e cada vez mais gritantes imperfeições e... derrotas.

E claro que outros que o antecederam existiram e agiram de forma nem tão diferente assim. Mas, por certo, nunca com tamanha morbidez. Afinal, temos a pandemia...

E a dúvida persiste! Como nos livrarmos disso?

Infelizmente ou não nosso problema democrático resulta de nossas próprias escolhas (democráticas).

Logo, somos reféns de nós mesmos. Somos “soldados” voluntariamente alistados em um ou em outro “exército” e nos vemos sempre assombrados com a possibilidade de vitória de nosso “oponente”.

Mas o que fazer então?

Desertar!

Abandonemos o campo de batalha e mandemos nossos sempre seguros e bem remunerados “generais” (hoje mais do que ontem) às favas sejam quais forem as cores das “fardas” usadas (talvez se bem lavadas nem se mostrem tão diferentes assim).

Busquemos o caminho do meio!

Se não conseguirmos nos libertar de nós mesmos - dos extremismos que nos habitam - talvez sejamos responsáveis por delegar o poder a algo tão funesto e desavergonhado quanto o que hoje temos, tenha o mandatário o nome (e as “cores”) que tiver, inclusive, o mesmo.

Não há virtude e glória nos extremos.

11/12/2020

Poeminha de ocasião

Da caminhada veio a inspiração.

Mas já adianto que é ficção.

Exercício de veia poética que sei, tenho não.

Causo de João, Manoel, Joaquim, Serafim e Sebastião.

João, gerente da firma de mineração.

Escrúpulos, não é segredo, não tem não.

Manoel, contador de causos e homem de ação.

Sabe bem quem é João e já contou pra multidão.

Joaquim, ficou fora da firma um tempão.

Voltou em busca de promoção.

De João recebeu comissão.

Cumpriu com capricho a missão.

Atacou Manoel com lança e facão.

Mas Serafim não gostou disso não.

Logo ele que é patrão do patrão.

Mandou João em Joaquim dar lição.

Mas Joaquim não só cumpriu a missão?

Pra João faz diferença não.

Só importa defender o quinhão.

A ordem que deu assumiu não.

Demitiu Joaquim de supetão.

Mas produziu barulho na multidão.

Tanto que logo em seguida à exclusão.

Recontratou Joaquim e prometeu promoção.

E a felicidade voltou à firma de mineração.

Ao menos até Manoel trazer um novo causo de João.

E Serafim, será que não sabe não?

Como diz o ditado, um dia a casa cai meu irmão.

Mas afinal, quem é Sebastião?

Presidente do sindicato, só não sei se de mineiro ou patrão.

Falar de Tião leva a nada não.

Ninguém dá importância quando simula alguma ação.

Nem mineiro, nem Manoel, nem patrão, nem João.

E menos ainda a multidão.

10/09/2020

Só um cachorro

Com nome e sobrenome.

Elvis Aaron Presley é alguém com quem tive o prazer de conviver desde os tempos de Major.

Elvis que parecia quase conversar conosco... Parecia?!

Elvis alegre, brincalhão, inteligente e companheiro.

Elvis ranzinza, esfomeado e cheio de manias (como só beber água em caneca).

Elvis corajoso e forte diante de um sem número de remédios e de incômodas sessões de radioterapia.

Elvis que esperou a passagem do aniversário de seu pai para partir (no dia seguinte, data do aniversário da concorrente papagaia - terá sido ao acaso?!)

Elvis, um filho querido que partiu após mais de uma década literalmente ao nosso lado.




Filho?

Mas não era só um cachorro?

Sim! Só um cachorro de um só humano.

19/06/2020

O velho normal do RJ

Mais uma grande operação da PM em área carente.
Mais um militar da PM tombado em ação.
Melhor seria dizer a verdade: morto por nada.
Mais um cadáver a virar número em  uma trágica estatística ao lado de outros, de policiais, crianças, idosos, senhoras e até mesmo marginais.
A reação? A de sempre!
A polícia civil instaurou inquérito para buscar o culpado. 
E quantos dos culpados anteriores foram descobertos? 
A polícia militar fará uma nova operação para buscar o culpado (sic); com sorte, sem mais vítimas fatais.
Façamos um breve exercício...
Esqueçamos por um momento dos culpados (em geral, nunca são descobertos mesmo).
Foquemos nos responsáveis!
Voltemos nossa atenção para as autoridades (em geral integrantes da alta hierarquia e recebedoras de consideráveis gratificações).
Até que ponto o dever de cautela em relação à preservação da VIDA tem sido negligenciado pelas autoridades públicas (civis e/ou militares) responsáveis pela deflagração de tais "operações"?
A apuração da responsabilidade das autoridades que determinam/consentem com a deflagração de "operações" em que a perda de VIDA se apresente ao final e regularmente como "efeito colateral indesejado" é medida das mais urgentes no âmbito do sistema de justiça criminal e de segurança pública do RJ.
De quem é a responsabilidade?

23/04/2020

Vírus controlado!

Na areia da praia e no mar, de onde idosos, mulheres e até mesmo crianças, incautos marginais da lei (ou do decreto) que insistem em afrontar a ciência do governo estadual, têm sido tocaiados, perseguidos, contidos em seu flagrante intento delituoso e, finalmente, presos.

Presos e sumariamente conduzidos, sob vara, para o movimentado calçadão da orla e em seguida, a bordo de um lotado "táxi camburão", para nova e "festiva" aglomeração na agradável recepção de uma delegacia de polícia.

Vírus carioca!

Prefere a areia da praia e o mar ao calçadão com quiosques fechados; também não parece ter impressão lá muito boa da polícia e de seus feitos burocráticos e morosos, buscando manter dela, sempre que possível, certo distanciamento social.

A propósito, desvendado o comportamento do vírus, talvez fosse mais eficaz a edição de um novo decreto, agora, não voltado só a seres humanos violadores em série dos poderosos e científicos desígnios do executivo estadual, mas ao próprio vírus, banindo sua presença no mar e na areia da praia; sempre, é claro, sob pena de prisão e condução para a delegacia; para a lavratura de um mero termo circunstanciado.

28/03/2020

O melhor secretário de segurança que o RJ já teve

Mega operações policiais e seus "efeitos colaterais" cessados; balas "perdidas", letalidade da polícia e contra a polícia em baixa "como nunca antes na história" recente do RJ.

Vidas de crianças e de outros inocentes valorizadas e poupadas!

Polícia Militar com padrão ibérico de qualidade do ponto de vista da destinação, majoritária e incrivelmente focada na defesa da vida e não em "mirar na cabecinha".

Avanço da "polícia privada" presente e genuinamente fluminense, constituída à revelia da Constituição Federal, integrada e financiada por particulares, e gerida de "fora para dentro" contido.

Jogo do bicho parado!

Sim, verdade... No RJ do carnaval, da improbidade quase cultural, da convivência libertina e "oficial" com a contravenção, e da cotidiana e nada casual inversão de valores, o jogo do bicho está parado.

Como fica a propina? Haverá voucher?

Não por força, é verdade, da eficácia, eficiência e efetividade da condução e desfecho de inquéritos policiais, mas do descortino de nova e implacável vertente, de ordem sanitária, crimes contra a vida e o patrimônio em brusca queda.

A sensação de impunidade de cada dia dá lugar a uma quase certeza de "punição", ainda que de ordem difusa e não penal.

Como nem tudo são flores, a vida de policiais parece continuar a merecer o valor de sempre por parte do poder público local, já que embora as infrações penais derivadas de desobediência às restrições sanitárias impostas sejam penalmente de menor potencial ofensivo, a mantença - sabe-se lá por quais razões - da lógica de não encaminhamento direto e não presencial aos Juizados Especiais Criminais (em oposição ao que já ocorre em diversas outras UF) assume agora grande potencial ofensivo à vida de policiais militares e civis, familiares, "presos", testemunhas e da população em geral.

Pelo visto há paradigmas no RJ imunes mesmo à pandemia.

Mesmo assim, há um fato muito positivo que parece estranhamente incontestável.

O RJ vivencia hoje sua melhor "política de segurança pública".

Sim eu sei, a "política" é sanitária e não de segurança pública.

Aliás, o RJ sequer possui secretário de segurança e a "política de segurança" seria ou tem sido ditada pelo próprio chefe do poder executivo.

Logo, a lógica determina a curiosa conclusão de que ao menos no RJ e em se tratando de "política de segurança", não só as noções quanto a práticas, meios e fins tendem a ser nebulosas e confusas, mas a sua mera ausência fática, ainda que determinada por razões de saúde pública, tem sido infinitamente melhor do que sua presença, real ou pretensa.

01/06/2019

Os três "pês"

“Cadeia no Brasil é para preto, pobre e prostituta”.

Vez por outra o dito popular vem à baila e já não tão raro sob enfoques que lhe aproveitam apenas a parte final, extrapolando a abordagem estritamente carcerária, e é nessa esteira de raciocínio que me atrevo a aventurar aproveitando dois dos qualificativos e comutando outro para tentar falar um pouco de vulto da história do Brasil ao qual o Brasil ainda não deu o devido valor.
Carlos Magno Nazareth Cerqueira, militar de polícia letrado em psicologia, foi de fato um subversivo ao buscar o desequilíbrio de um sistema militar e culturalmente sedimentado, todavia, equivocado.
“A PM está proibida de subir morro”.
Frase atribuída ao governador Leonel de Moura Brizola, mandatário que, no início da década de 1980, rompeu a hegemonia verde oliva e destinou a um Coronel PM o comando da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.
Cerqueira, Coronel PM filho de Cabo também PM, assumiu então não apenas o Comando Geral, mas a até então inexistente Secretaria de Estado de Polícia Militar, extinguindo-se a pasta da “segurança pública”, mais um front antes ocupado por “combatentes” do Exército Brasileiro.
“Ele vai desmilitarizar a PM”.
Profecia atribuída com grande dose de repulsa e por vezes prenunciada de adjetivações nada nobres ao gestor Cerqueira.   
Talvez meias verdades ou verdades descontextualizadas sejam piores até do que mentiras.
Cerqueira de fato pretendia desmilitarizar a PM e Brizola proibia a PM de subir morro, mas a abordagem jamais foi tão simplória assim.
Ao assumir a gestão da PM, Cerqueira enxergou – e o fez bem à frente de seu tempo – a necessidade de mudar o ethos da Polícia Militar; de afastá-la da lógica majoritária e rasa de “combate ao crime”, buscando uma expertise que lhe deveria ser peculiar, muito menos “guerreira” do que policial, focada mais no atendimento da população, do que em ações bélicas de “ataque” a criminosos.
No mesmo sentido, emergia de Brizola não exatamente a vedação de acesso da PM ao morro, mas a obrigação de que tal ação fosse realizada de forma planejada, com objetivos tangíveis e tendo como premissa basilar a preservação da vida humana, inclusive, dos próprios policiais.
Cerqueira percebeu de forma vanguardista que o modelo de administração militar no âmbito policial, vigente em diversos outros países além do Brasil e em todos os continentes, não deveria ser pressuposto de afastamento entre polícia e sociedade.
Se ainda hoje há “estudiosos” que insistem em apontar pretensa incompatibilidade entre modelo de administração militar e exercício de atividade policial, Cerqueira utilizou o modelo militar de administração – afinal, ele era o Comandante Geral – para subverter as práticas ditas policiais então vigentes, fazendo nascer algo novo no cenário nacional e ainda hoje fruto de incompreensões.
Da caneta, da autoridade militar, das pesquisas e da mente brilhante do Cel Cerqueira nasceu a práxis policial focada no atendimento dos anseios sociais e na construção de soluções compartilhadas para a melhoria de condições locais tendo como promotor não o “guerreiro”, mas o chamado “policial comunitário”.
Policial comunitário que em verdade era “rotulado” como tal de forma preconceituosa e discriminatória pelos “guerreiros” que talvez vissem naquela novidade um delírio ou um mecanismo destinado a afastar a PM do “combate” e a proteger os marginais; afinal, “Brizola proibiu a PM de subir o morro”.
Mas Cerqueira não interrompeu a semeadura...
Mandou traduzir e distribuir aos seus cadetes obras de José María Rico Cueto; criou, dentre outras tantas coisas que acabaram por reverberar Brasil afora e que em época recente no mesmo Rio de Janeiro assumiram configuração similar, embora com diversa titulação e sem os créditos devidos, o Grupamento de Aplicação Prático Escolar, com ênfase na lógica de polícia comunitária e embrião do que viria a ser mais à frente e em seu segundo Comando Geral o Batalhão Escola de Polícia Comunitária; o Grupamento Especial de Turismo; o Grupamento Especial de Policiamento em Estádios e o Programa Educacional de Resistência às Drogas (PROERD).
Buscou ainda introduzir no âmbito interno dinâmicas voltadas à gestão participativa, tentando trazer os antes “guerreiros” para a discussão e reflexão acerca dos problemas da Corporação e da sociedade.
Elaborou e fez publicar o primeiro Plano Diretor da história da Polícia Militar.
Criou e deu independência a algo também novo em sua época: uma Corregedoria de Polícia. Cerqueira estabeleceu ligação funcional direta ao seu Gabinete, sem qualquer outra subordinação, da então Corregedoria Geral da Polícia Militar.
No âmbito da Biblioteca da Polícia Militar, deu ensejo à publicação dos “cadernos de polícia”, com temas focados no saber policial e em experiências internacionais, como, para citar apenas alguns exemplos: “polícia comunitária”, “administração de patrulhas policiais”, “a redução do temor em relação ao crime em Houston e Newark”, “manual de vigilância de bairro”, “polícia internacional”, “valores éticos de policiamento, a evolução da estratégia de policiamento, estratégias institucionais para o policiamento, crime e administração”; “administração policial contemporânea e qualidade do serviço policial”, “polícia, violência e direitos humanos”; “a experiência do patrulhamento preventivo da cidade de Kansas”, “cartografia da prevenção da delinquência”, “estresse e mediação de conflitos”, “introdução ao estudo da vitimização e delinquência infanto juvenil” e “a investigação do crime”.
Na apresentação dos Cadernos de Polícia, Cerqueira delineou, com absoluta clareza, transparência e, ao mesmo tempo, de maneira simples, a profundidade e o arrojo de seus objetivos:

CADERNOS DE POLÍCIA inscreve-se dentro do Plano Editorial da Corporação com o escopo de atuação na área do desenvolvimento do pessoal, notadamente nos assuntos ligados à capacitação técnica do pessoal de nossos quadros. 
Todo profissional que preza o seu trabalho tem obrigação de conhecer a fundo o estado de arte de sua profissão. E hoje em dia, no estágio atual das comunicações entre os povos, nós policiais temos o dever de saber tudo o que está sendo feito em matéria de polícia, aqui e nos outros lugares do mundo. 
Os CADERNOS DE POLÍCIA pretendem  facilitar esse conhecimento, publicando textos especializados, seja na área do patrulhamento, seja no terreno da investigação criminal, seja em outros campos do conhecimento científico que tenham ligação com o trabalho policial. 
Acreditamos que, de posse desses conhecimentos, estaremos, nós policiais, em condições de, analisando as experiências e teorias de outros povos e instituições, aceitá-las quando as julgarmos válidas, adaptá-las quando considerarmos que há algo a lucrar, ou até mesmo rejeitá-las quando entendermos que não nos convém. 
É nosso intuito ainda com a publicação dos CADERNOS DE POLÍCIA, preencher uma lacuna que existe no campo da bibliografia policial; esperamos poder apoiar didaticamente os cursos de formação e especialização de oficiais, não só de nossa Corporação, como também de outros Estados.

CEL PM Carlos Magno Nazareth Cerqueira
Secretário de Estado de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. (CERQUEIRA,  1993)

Ao mesmo tempo em que buscou incrementar a produção intelectual de novos saberes e de novos fazeres em uma velha polícia, Cerqueira revogou as “Bases Doutrinárias para o Emprego da PMERJ”, de inspiração francamente belicista e com foco voltado à defesa interna e territorial, e editou resolução destinada à aplicação, no âmbito da Polícia Militar, do “Código de Conduta dos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei”, oriundo da Organização das Nações Unidas.
Cerqueira foi Secretário de Estado de Polícia Militar nos períodos de 1983 a 1987 e de 1991 a 1995.
Em 14 de setembro de 1999, aos 62 anos de idade, foi assassinado, vítima de disparo de arma de fogo contra sua cabeça, no Centro do Rio de Janeiro, em episódio ainda não cabalmente elucidado.
Nos dias de hoje, findado recente retorno, via intervenção federal, da gestão da segurança pública às mãos de militares do Exército Brasileiro, a PM do RJ é, ainda, a que mais mata e a que mais morre no Brasil.
No mesmo Brasil que teve a felicidade de ter em Cerqueira um de seus ilustres filhos...
Um filho preto, pobre e PM.