31/07/2018

Há esperança para o Rio

Sempre há; e o sentimento parece ficar mais aguçado quando estamos diante da mudança de gestão governamental, frente ao início do processo eleitoral.

Mas será que há saída para o RJ (e não só do Rio) e, mais particularmente, para o quadro desolador de insegurança em que se encontra?

Embora não haja de fato soluções mágicas para o problema da (in)segurança e seja ele, guardadas as devidas proporções, é claro, algo relativamente peculiar à vida em sociedade nos grandes centros urbanos, há certamente medidas que podem e devem ser adotadas para que seja controlado, tanto do ponto de vista dos dados concretos (insegurança objetiva), quanto abstratos (sensação de insegurança).

No final da década de 1980 um político alcançou a vitória no pleito para o governo do RJ com a promessa de que acabaria com a violência em seis meses. Venceu a eleição e, é claro, não cumpriu a promessa; aliás, jamais poderia cumpri-la; ninguém poderia ou pode.

Por outro lado, o delineamento claro de medidas concretas e objetivas tendentes ao menos e em curto prazo a promover o renascimento da esperança do controle do problema da (in)segurança e a redução de danos direta ou indiretamente relacionados ao mesmo, é algo não apenas factível, mas, por incrível que possa parecer, não oneroso.

A principal questão do RJ no que toca à gestão do problema da (in)segurança não é a escassez de recursos, mas sim o não descortino das inúmeras possibilidades de fazer "mais com menos", promovendo segurança com economia e incremento de qualidade, fruto da otimização de recursos e de protocolos já existentes.





14/04/2018

"Lembrança de um amargurado negro policial"

Que coisa! 
Descobri que sou negro 
E nunca falei em versos 
Do ser negro 
Nunca cantei sua dor 
De ser quase gente 
De ser diferente 
E quase sempre Humilhado por sua cor 
Ser negro é ser pobre 
É ser besta 
É ser vilão 
É ser burro 
É estar na servidão 
É não ser gente 
É ser diferente 
Que coisa! Que coisa! Não corri da polícia nem ganhei medalha de ouro como corredor, mas corri para a polícia... Não fui assassinado nem fui criminoso... Que coisa! Não vou interrogar o silêncio.".

Coronel Cerqueira, um homem muito à frente de seu tempo, foi assassinado no Rio de Janeiro em 14 de setembro de 1999.


As circunstâncias do homicídio permanecem nebulosas até hoje.

(*)  Manuscrito da entrevista com Carlos Magno Nazareth Cerqueira de 18 de julho de 1988. In Museu da Imagem e do Som. Projetos Especiais: Cem anos de Abolição, p. 10. In Arquivo pessoal do coronel Nazareth Cerqueira localizado no Instituto Carioca de Criminologia, extraído da tese de doutorado de Bruno Marques Silva intitulada "Uma nova polícia, um novo policial”: uma biografia intelectual do coronel PM Carlos Magno Nazareth Cerqueira e as políticas de policiamento ostensivo naredemocratização fluminense(1983-1995)". 

31/12/2017

Ano novo

Dias atrás perguntei à minha filha se ela tinha blog e notei que sua resposta negativa veio acompanhada de certa perplexidade como que a afirmar que isso era coisa do passado; modismo já deixado no passado.
Pois é; em tempos de snapchat, instagram e outras coisas que confesso sequer me atrever a tentar escrever, parece que blog é mesmo coisa do passado; coisa velha. 
Mas eu tenho blog (ou blogue, já não sei qual a grafia mais correta)! E nem sou tão velho assim ainda. Mas o blog também não é tão velho quanto pode parecer ser.
Divagando a respeito me dei conta de que o tempo "vivido", tanto por mim quanto pelo blog, não é de fato o elemento determinante para que sejamos julgados mais ou menos velhos e em desuso.
Tá, mas e daí?
E daí que escrevo o texto "saideiro" e ao mesmo tempo pioneiro de 2017 certo de que os anos recentes vividos o foram com muito maior densidade de vida propriamente dita, do que de meros minutos, horas e semanas.
Parece que envelheci mais do que o próprio tempo. Acho que de certa forma ganhei dele. Venci essa! Vivi  compulsivamente meses em semanas, anos em meses e quem sabe até uma década em um punhado bem menor de anos (ao menos é o meu sincero sentir).
Mas de que serviu isso? Os desafios abraçados foram alcançados? Ajudei a construir, com a pequenez de um mero ser humano encarnado, algo de bom para a sociedade? Creio que não, a despeito de algumas tentativas sem resultados duradouros e com alto preço pago por pessoas de bem que se dispuseram a somar esforços em uma ou outra batalha.
Mas amanhã será ano novo!
Que venha então o ano novo e com ele, creio, uma vida nova; vida que, confesso, talvez não tenha ainda vivido apesar de velho. Tão velho quanto o blogue já fora de moda ou o youtube e o facebook. Youtube e face? Não. Eles não caíram em desuso.
Vamos a 2018...

31/12/2016

Ano velho

Ano de perdas e de mudanças.
De partidas e de chegadas.
De coisas novas, inesperadas, e de coisas velhas, não assimiladas.
Convenhamos, quem de fato assimila completamente a morte?
Mas o ano está terminando... Amanhã será passado.
Sim eu sei, é só uma convenção... Uma forma quase matemática de parametrizarmos e dividirmos a  esperança. Antes e depois... Velho e novo...

Afinal, como disse o poeta,  
"A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida"


E que venha 2017! 

14/08/2016

Pai


10/06/2016

Marcus Jardim Gonçalves

Vulto inconteste da história da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Marcus Jardim Gonçalves exerceu o comando de diversas Organizações Policiais Militares, podendo-se citar a 9ª CIPM, CIPMCães, 35º BPM,  7º BPM, 12º BPM, 16º BPM, além do 1º e do 3º Comandos de Policiamento de Área.

No interior das Unidades que comandava mandava grafar frases bíblicas para exortar sua tropa a bem servir.

A ninguém queirais extorquir coisa alguma; nem deis denúncia falsa; e contentai-vos com o vosso soldo(Lucas 3:14, área interna do 7º BPM).

Em meio aos enfrentamentos, às perdas de vidas de sua tropa na área de policiamento do 16º BPM e ao interesse internacional que recaía sobre a política de segurança do Rio de Janeiro, presenteou relator da ONU com réplica de veículo blindado ao recebê-lo em sua Unidade Operacional dizendo:

"Esta é a representação de nosso veículo blindado, carinhosamente apelidado de caveirão, que tantas vidas já salvou. Viva o 16º Batalhão da PM, viva o caveirão!”.

Comandava a circunscrição do 1ª Comando de Policiamento da Capital quando da ocupação, no ano de 2010, do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro. Como tal e como ex. comandante do 16º BPM foi o principal responsável pelo planejamento das ações que mereceram cobertura nacional e internacional.

Ainda no Comando do 1º Comando de Policiamento de Área gerou polêmica ao distribuir cartões de Natal com um Papai Noel PM, trajado de azul e equipado à frente de um veículo blindado.

Desempenhou ainda relevantes cargos no cenário municipal.

Foi Secretário de Segurança Pública de São Gonçalo e de Ordem Pública de Niterói, oportunidades em que fomentou a profissionalização das Guardas Municipais e a integração de esforços entre municípios e estado em prol da segurança pública.

Em Niterói, foi em sua gestão que teve lugar a inauguração do Centro Integrado de Segurança Pública e o advento das Bases Integradas entre PM e Guarda Municipal.

Inovador e disposto à quebra de paradigmas em prol da eficiência foi o responsável por uma das maiores e mais audaciosas inovações voltadas à melhoria do atendimento ao cidadão, implantando, com êxito, a lavratura de termos circunstanciados por servidores da Guarda Civil Municipal de Niterói nas hipóteses de infrações penais de menor potencial ofensivo.

Religioso, fervoroso devoto de São Jorge e maçom, não raras vezes e sem alarde destinava tempo e recursos à filantropia realizando a entrega de brinquedos a crianças carentes e de cestas básicas a famílias necessitadas.

Flamenguista “doente”, trabalhador compulsivo, tinha estranha cisma com as segundas-feiras e era obstinado pela vida e pela Polícia Militar.

Ficava insatisfeito quando seu nome era grafado com “o” e não com “u”. “É Marcus com ‘u’ guerreiro”. “Guerreiro” era a palavra que costumava utilizar ao lidar com pares e subordinados.

Palavra que, em verdade, bem reflete a conduta do Cel Marcus Jardim Gonçalves.

Lutou contra o câncer por mais de uma década e, já nos estertores de sua vida terrena, mesmo acamado no Hospital Central da Polícia Militar, fazia questão de despachar documentos de sua responsabilidade como secretário municipal de ordem pública. 

Nas palavras do Cel RR José Maurício Padrone, que bem refletem a estirpe profissional do Cel Marcus Jardim, era ele “homem de ação, justo, motivador e contagiante. Seus posicionamentos e atitudes sempre foram claros e objetivos, respeitados pelos seus pares e adorado pela tropa. Defensor aguerrido da sociedade, entendia o cenário da violência como poucos. Perdem a PM e a sociedade um ícone cujas palavras e ações não serão esquecidas.”.

Na sexta-feira à noite, dia 13/05/2016, em seu leito hospitalar, já sem condições de falar e mesmo de se alimentar, fez questão de responder, com dificuldade e fazendo o gestual da continência, à saudação militar recebida por subordinado que o visitava.

Partiu na madrugada de segunda-feira vítima de câncer prostático metastático. Estava ao lado de sua esposa no quarto 765 do Hospital Central da Polícia Militar.

Em seu sepultamento e em meio às centenas de civis e militares que lotavam o Cemitério Parque da Paz, em São Gonçalo, recebeu a continência de profissionais da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal perfilados à passagem de sua urna, coberta pelas bandeiras do Brasil e do Flamengo.

Ao toque de silêncio, seu féretro desceu à sepultura, mas seu legado dentro e fora da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro continua vivo.

O legado do Coronel de Polícia Militar Marcus Jardim Gonçalves.



30/03/2016

Exemplo e ontem


Como dizia Albert Schweitzer, dar o exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros, mas a única.

Ontem, ao completar meu vigésimo sétimo aniversário de ingresso na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, ponderei sobre personalidades com as quais trabalhei e que, com seus exemplos, me marcaram positiva e negativamente; de soldados a coronéis.

Como dizia meu saudoso pai, eu deveria observar exemplos em meus locais de trabalho, bons e ruins, copiando os primeiros e refutando os últimos.

Ontem ainda tive a oportunidade de comparecer ao prédio em que nasci, no Estácio, na sede do Hospital Central da Polícia Militar, para visitar uma dessas personalidades, marcante, tenho certeza, não só para mim.

Lá estava o nem tão velho assim Coronel de Polícia em mais um capítulo de sua aguerrida luta por restabelecimento. Aliás, se eu tivesse que escolher uma palavra para simbolizar esse profissional, ou melhor, esse ser humano, creio que a palavra luta seria a melhor escolha. Sei que poderia escolher muitas outras: coragem, retidão, força, fé, coração, etc., mas escolho luta pois é a que me vem a mente no momento em que  me recordo de sua imagem de ontem e de outrora ao longo de sua carreira dentro e fora da PM do RJ.

Claro que, como todos os superiores, pares e subordinados com os quais trabalhei, nem sempre houve concordância em pontos de vista, embora talvez no caso desse Coronel de Polícia tenha sido eu fonte de não poucas manifestações de superioridade intelectual e moral de sua parte (não falo agora de hierarquia funcional) ao lidar e relevar, ao longo de anos de trabalho em conjunto, minhas imperfeições e deficiências.

O Sr. é fonte de inspiração Cel...

Inspiração, por seu legado e amor institucional, para os homens e mulheres, ativos e inativos, que integram a importante, mas pouco compreendida e justiçada Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Certamente inspiração também para seus familiares por suas demonstrações de probidade e zelo.

Inspiração para centenas de profissionais de segurança pública de Corporações outras com os quais teve e tem contato em razão de atribuições exercidas após sua precoce transferência para a inatividade.

A luta continua Cel!

Coronel de Polícia e Secretário Municipal de Ordem Pública de Niterói MARCUS JARDIM GONÇALVES



 



30/08/2015

Carta de Natal

Federação Nacional das Entidades de Oficiais Militares Estaduais
XV Encontro de Entidades de Oficiais Militares Estaduais
Carta de Natal-RN

Aos vinte e sete dias do mês de agosto de dois mil e quinze, as entidades de oficiais militares estaduais, federadas à Federação das Entidades de Oficiais Militares Estaduais (FENEME), representada por seus Presidentes, reunidas por ocasião de seu 15º Encontro Nacional, na cidade de Natal, Estado do Rio Grande do Norte, proclamam a presente “Carta de Natal” nos seguintes termos:
I – Repudiar qualquer iniciativa tendente a manter ou reforçar o atual sistema policial marcado por meias polícias e por uma resolutividade de infrações penais que, vergonhosamente, tem atingido em média míseros 5% (cinco por cento), situação única no mundo no que concerne a ineficiência.
II – Implantar o Ciclo Completo de Polícia, para todas as instituições policiais, a exemplo de todos os países, com destaque para as nações desenvolvidas, permitindo que os atos lavrados sigam diretamente ao Poder Judiciário, deste modo: - possibilitando uma reforma estrutural com redução significativa de custos - aumentando a fidedignidade das informações prestadas; - desburocratizando o atendimento policial ao cidadão; - alcançando maior eficiência de todas as instituições policiais; a ser consubstanciado com a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 423/2014, a “PEC da Segurança” bem como outras que contenham a implantação do Ciclo Completo.
III – Reforçar o conceito de autoridade policial, conforme constantemente ratificado pelo STF, no contexto da Lei 9.099/95 como o primeiro policial atendente da ocorrência in loco, cabendo a esta instituição o registro do fato com o encaminhamento ao Poder Judiciário, refutando as tentativas meramente corporativistas, que têm pressionado o Congresso Nacional a concentrar tal conceito em um único cargo.
IV – Defender a criação de um Conselho Nacional de Polícia, como órgão maior fiscalizador do sistema policial, com a participação da sociedade civil organizada, trabalhadores da segurança pública e instituições, objetivando fortalecer as apurações de irregularidades policiais e, por conseguinte, a disciplina Policial e a credibilidade das instituições perante a sociedade.

V – Fortalecer o poder de Polícia Administrativa da Polícia Militar atribuindo, por leis específicas a ela, competências relativas a gestão preventiva da segurança pública e preservação da ordem pública, promovendo-a a instituição por excelência preventiva, ao contrário do quadro atual.

VI – Fortalecer o poder de Polícia Administrativa do Corpo de Bombeiros, incluindo todos os atos deste, no que se refere aos assuntos afetos a: prevenção e combate a incêndios, prevenção e atendimento a sinistros, situações de emergências e pânico, calamidades públicas, entre outras atividades de segurança pública e defesa civil, pela necessária instituição dos códigos de prevenção contra incêndio estaduais e nacional.


Natal-RN, 27 de agosto de 2015.
MARLON JORGE TEZA
Coronel PMSC

09/08/2015

No passado

Lembro-me de quando vestia a camisa azul de meu pai, orgulhoso em ser filho de PM, não fazendo segredo algum (muito ao contrário) em dizer que era filho de Capitão da PM. "Seu pai é capitão e advogado" (sic), dizia minha mãe...
Lembro-me do dia em que, atendendo aos meus reiterados apelos, meu pai me buscou, fardado, à saída da escola e lembro-me daquela roda de crianças em torno dele.
Lembro-me de sua espada presa à parede na sala de nossa casa.
Lembro-me do presente que, com a autoridade de meus poucos anos de vida, lhe dei e da promessa de que ele o exibiria em sua mesa de trabalho. Era um brasão de plástico com a expressão "Capitão" que comprei na barraquinha do colégio com o dinheiro da merenda.
Lembro-me do Cabo de Polícia responsável por garantir nossa travessia segura ao término das aulas e das homenagens que sempre recebia de nossa escola aquele "Cabo velho".
Lembro-me de meu pai me mandando buscar seu "bibico", já que estava seguindo para o pátio do Batalhão de São Cristóvão e não queria dar mau exemplo.
Lembro-me dele engraxando o coturno para a passagem de comando do Batalhão. E lembro-me dele desfilando, ao lado de outros Oficiais, em continência ao novo Comandante, em plena Praça da Harmonia.
Lembro-me dos desfiles no dia 21 de abril, quando, orgulhoso, ladeava meu pai na escadaria da ALERJ para ver a PM desfilar. E lembro-me daqueles uniformes azuis, da marcialidade, do movimento d`armas e do brado da EFO.  
Lembro-me de respeito, tradição, garbo, amor...
Lembro-me da Polícia Militar!
E lembro-me de que, como ouvi faz alguns poucos anos, o futuro da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro está no passado.
No passado!