03/07/2008

Um texto que me fez sentir vergonha de integrar a PM do RJ

"3/7/2008 02:10:00

Onde até a saudade se cala

Sem resposta de autoridades, pais de menino morto no Muquiço ainda aguardam perícia no local
Maria Mazzei

Rio - Não havia neurocirurgião no hospital. Não houve também perícia no local dos tiros. Também não há, na Favela do Muquiço, em Guadalupe, segurança para a família que perdeu seu filho. No dia da incursão policial, faltava água na comunidade. Tudo pode ser resumido em uma trágica constatação: não há Estado para os pais de Ramon Fernandes, de 6 anos, morto sábado de manhã durante operação da polícia — com motivação até hoje desconhecida — no Muquiço.
A auxiliar de serviços gerais Andréia Pereira Fernandes, de 37 anos, nunca esteve com o governador Sérgio Cabral. Mas já sabe o que diria se isso acontecesse. 'Se eu estivesse falando com o governador? Perguntaria: ‘Qual a diferença do meu filho para o menino morto por um PM na boate?’. O meu mora numa comunidade e é pobre. Os dois perderam a vida pelas mãos da polícia. A dor é a mesma. A mãe dele perdeu o filho como eu. Mas no meu caso, ninguém está fazendo nada. Nem a perícia veio à minha casa', lamenta. 'O meu filho já faz parte do passado. Amanhã vai ser outra criança baleada, e outra, e outra. Isso acontece todos os dias e ninguém faz nada. Nada acontece', acrescenta.
Andréia conta que o filho desceu as escadas dentro de casa, sábado de manhã, e começou a esperar pelo pai. Paulo Roberto tinha ido a um bar próximo para ver se havia água, já que na residência estava faltando. Ramon esperava, respeitando o limite do portão da casa, já que não podia ir para a rua — ele estava de castigo por não ter feito o dever de casa.
De repente, os tiros começaram. Andréia se assustou e desceu correndo. A cena que viu: o filho caído, ensangüentado. Na parede, a marca da violência. Em desespero, Andréia levantou Ramon nos braços e pediu ajuda.
Com um vizinho, pai, mãe e filho foram ao Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes. 'No caminho, ele apertava a minha mão. Eu pedia para ele não fechar os olhos. Apertando a minha mão, sabia que ele estava me sentindo.' A violência como rotina chegou a enganar a mãe desesperada. 'O tempo todo tentei acreditar que era um tiro de raspão, como tem todo dia por aí', lembra Andréia.
Por volta das 10h, chegaram à Emergência do Carlos Chagas, mas não havia neurocirurgião, apenas médicos que deram os primeiros socorros. O menino, então, foi encaminhado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, onde, por volta de 14h, começou a ser operado. Às 18h30, Ramon saiu do hospital, que não tinha CTI, e foi levado para o Hospital da PM. Mas era tarde demais.
Os heróis do menino: Homem-Aranha e o pai
Já aos 6 anos, Ramon tinha sonhos: queria ser jogador de futebol. De preferência, do Botafogo, time pelo qual nutria grande paixão. Quando o alvinegro perdia, ficava chateado. Nem ia às partidas no Centro Comunitário Depende de Nós, onde costumava jogar. Apesar de tão criança ainda, já tinha até posição preferida dentro de campo: atacante.
Além do Botafogo, outra paixão era o Homem-Aranha, estampado na parede do quarto. Usava a camisa e o short do super-herói, a quem tentava imitar, subindo pelas paredes dos corredores da casa, esticando e abrindo pernas e braços.
Só não conseguia mesmo era imitar seu ídolo maior: o pai, o auxiliar de pedreiro Paulo Roberto Conceição. Que hoje sofre em silêncio.
‘DEUS ESQUECE DE POBRE’
O atendimento dos médicos no Getúlio Vargas ficará na memória de Andréia, que ouviu um deles dizer: 'Mãe, estamos fazendo tudo por ele. Só Deus, por ele'. Na hora em que o médico falou em Deus, todos se deram as mãos. 'Daquele momento em diante era rezar, rezar, rezar. Mas, às vezes, Deus se esquece de gente pobre', diz, com esforço, Paulo Roberto, pai de Ramon.
'Talvez, se no Carlos Chagas houvesse atendimento, com neurocirurgião, meu filho pudesse estar vivo', lamenta Andréia. 'Não bastasse ele ser atingido dentro de casa por um tiro, o hospital não tem recurso para atender as pessoas direito.'
O pai demonstra revolta com a atuação da PM: 'Quem mora em prédio na Zona Sul pode ir brincar no playground. Meu filho ia brincar no campinho aqui perto de casa. Se todos sabem que as crianças estão na rua, por que entram atirando?'. Enquanto o marido desabafa, Andréia mostra um vaso de plantas que encobre um buraco de bala na parede. Ali, a marca da dor e da saudade
." (O Dia Online).

Vergonha de ver o aparato que deveria servir e proteger a população (e que tem potencial para tal) entregue às aventuras, mandos, desmandos e aos devaneios de poder de alguns (...) de terno e gravata (ou não).

Vergonha por não reagir!

2 comentários:

Gustavo de Almeida disse...

O que eu realmente não entendo, Major Wanderby, é porque ninguém vem a público falar destas mortes de pessoas pobres, principalmente CRIANÇAS pobres.
Tá certo, o governador veio a público atacar o PM do caso da Baronetti (embora ninguém tenha feito perícia nas mãos dos envolvidos para ter certeza de que a pólvora está nas mãos do PM).
Mas morre uma criança por dia. A tiros. Em operações feitas de manhã.
Estamos realmente mais seguros? A PM está sendo paga com Justiça? Estão sendo bem treinados. As famílias dos PMs estão sendo bem amparadas? Não, para todas as perguntas.
Aí, a conseqüencia só pode ser uma tropa que reage a tiros ao menor sinal de distúrbio. Vira irmão contra irmão, como dizia na Bíblia - o soldado que ganha R$ 800 invadindo a favela e dando tiro na criança do pai pedreiro, da mãe doméstica. Guerra entre pobres, miseráveis, só que de um lado está o Estado armado. E do outro, a ausência completa dele.
Acima deles, governantes inaugurando PAC, fazendo alianças para as eleições, andando de bicicleta.
Quando o Rio vai se cansar de ver crianças morrendo?

Anônimo disse...

Compartilho de seu sentimento. Lágrimas me vieram aos olhos, por perceber, o que me tornei.

Samango 4º CPA