11/10/2007

"Eu sei, mas não devia".

"Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma
.".
(Marina Colasanti in "Eu sei, mas não devia" - Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1996)

6 comentários:

Anônimo disse...

"Cobertor pequeno":

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12/10/2007 01:10:00

Contribuição inviabiliza reajustes

Sérgio Cabral afirma que pretende garantir aumentos para médicos, policiais e professores


Alfredo Junqueira e Ricardo Villa Verde


Rio - O governador Sérgio Cabral declarou ontem que não terá como conceder reajuste salarial aos servidores de Educação, Saúde e Segurança, ano que vem, se tiver que arcar sozinho com os R$ 400 milhões dos encargos patronais com o Rioprevidência dos funcionários do Tribunal de Justiça (TJ), Assembléia Legislativa (Alerj), Tribunal de Contas (TCE) e Ministério Público (MP). A iniciativa do governador de transferir as despesas para os respectivos órgãos está provocando grave crise institucional entre os poderes.

Na Alerj, a tramitação do Orçamento foi suspensa. Programada para quarta-feira, dia 17, a audiência pública em que secretários da área econômica do governo explicariam o projeto aos deputados foi cancelada. Com isso, o rito regimental da proposta está parado e o calendário inicial elaborado para a discussão do tema não será cumprido. “Há crise e insatisfação. O impasse precisa ser resolvido”, declarou o presidente da Comissão de Orçamento, Edson Albertassi (PMDB).

INSATISFAÇÃO NO TJ

No Tribunal de Justiça, desembargadores se mobilizam para impedir que o Judiciário passe a pagar as contribuições patronais. A despesa faria com que o órgão ultrapassasse os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para gastos com pessoal. Caso isso ocorra, o presidente do tribunal, desembargador José Carlos Murta Ribeiro, correria o risco de ter suas contas rejeitadas pelo TCE e poderia vir a ser obrigado a cobrir a despesa extra com seu patrimônio pessoal.

Irredutível, Sérgio Cabral declarou a O DIA que não aceita arcar com a despesa, pois não pode ficar com o Orçamento engessado para investimentos e obras. “Cada poder deve fazer seu dever de casa, para que o governo possa dar reajuste a professores, médicos e policiais”.

Executivo e Judiciário não se entendem

Apesar de o governador Sérgio Cabral esperar compreensão dos demais poderes, dificilmente a Alerj, o MP, o TCE e o TJ aceitarão arcar com as contribuições de seus servidores em 2008. O maior problema está no TJ. Desde 2006, o Judiciário aumenta suas despesas com pessoal. Dia 4, o órgão conseguiu aprovar na Alerj projeto criando 165 cargos em comissão para a contratação de motoristas, copeiros, garçons, entre outros. Está previsto agora o envio de outra mensagem criando 10 novos cargos de desembargadores.

Nos últimos meses, a iniciativa de reajustar os salários dos serventuários em 13,58% já colocou em rota de colisão Cabral e o presidente do TJ, Murta Ribeiro. O projeto ainda tramita na Alerj, mas já provocou desgaste entre o Executivo e o Judiciário. O índice foi reduzido pelos deputados para 4%.

O presidente da Alerj, Jorge Picciani, não aceita nem falar sobre as contribuições previdenciárias, segundo fontes da Casa. Se assumir os R$ 22,8 milhões para pagar a despesa em 2008, o Legislativo ficará muito próximo do limite da LRF para gastos com pessoal, impedindo reajustes para os servidores da Casa.

ALERJ DEIXOU LEI CONFUSA

A falta de clareza na lei que aumentou a contribuição patronal para o Rioprevidência, de 11% para 22%, é uma das causas da polêmica sobre o orçamento estadual de 2008. O projeto original enviado à Alerj pela ex-governadora Rosinha Garotinho, em março de 2006, definia claramente a responsabilidade de cada poder em pagar as contribuições de seus servidores.

Na Casa, porém, a proposta foi mudada pelo presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Paulo Melo (PMDB). Ele retirou as citações ao TJ, Alerj, TCE e MP, colocando apenas o “Estado do Rio” como responsável pelas contribuições. A partir daí, o Poder Executivo passou a arcar sozinho com as despesas. A articulação para mudar o texto envolveu também o presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB), segundo a ata da sessão de 17 de maio de 2006. Melo e Picciani não foram localizados para comentar o assunto.


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Em suma: enquanto TJ, MP, Alerj e TCU mantém salários nababescos (um juiz ou promotor ganha MUITO mais do que vinte praças), infinitas regalias e contratam cada vez mais comissionados (sem concurso) para participarem do OBA-OBA, nossa famélica e sucateada PMERJ ouve do governador que "ele nada pode fazer".

Esse é o nosso desigual estado, onde uns produzem muito pouco e fazem a festa, enquanto outros doam suas vidas para garantir a segurança deles e ainda assim passam fome.

O que farão nossas lideranças a respeito? Vamos nos acostumar a tamanha disparidade? Vamos aceitar passivamente tal aberração?

Anônimo disse...

Lindo, muito lindo, Sr.Major!

"...A GENTE SE ACOSTUMA
PARA POUPAR A VIDA..."

P'ra navegar por mares
de procelosas águas
Em que de vaga em vaga
vão para trás ficando
Espumas desfeitas
E desconhecidos pélagos!
(Long Road)

Anônimo disse...

Também sou policial civil.
Reinaldo Oliveira.
Apenas colei de nosso grupo no Yahoo:

Despreparo policial

Enviado por Sidney Rezende . 13.10.07

Os quase 40 mil policiais militares do Rio de Janeiro precisam passar urgentemente por um rigoroso processo de reciclagem. Está tudo errado.

Sei do esforço do comandante geral, coronel Ubiratan Ângelo, mas o efetivo não é pró-ativo e nem está capacitado para o desafio que o momento exige.

Observo que raramente um policial toma a iniciativa de agir no sentido da prevenção. Não quero com isso desmerecer o sucesso no combate ao tráfico que vem obtendo a atual gestão liderada pelo Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. Todas as ações de inteligência alcançam bons resultados. Mas eu estou me referindo ao combate no varejo.

Outro dia um policial nas Paineiras, fardado, cantou uma mulher acompanhada. Hoje na Vieira Souto, em Ipanema, bairro de frequência internacional, tinham 6 policiais conversando, em frente ao Country Club. Por que tantos, - e juntos - numa única quadra?

Pior, em frente a este time de vôlei de inoperância, uma van estacionada na pista da direita atravancando o trânsito; 15 metros além uma carrocinha de churros cravada na ciclovia. Pergunto, alguma ação policial para repôr a ordem? Eu mesmo respondo: nenhuma.

Na Lagoa, uma patamo, novinha, destas usadas durante o Pan, circulava com policiais com roupas de combate. Tudo bem. Só que com os fuzis para fora, na direção dos pedestres. Para quê isso?

No subúrbio, o efetivo é sistematicamente reduzido. Os moradores da zona norte já cansaram de pedir mais contigente. E nada. E o que chama a atenção é que os policiais estão tão acostumados aos pequenos abusos, que esquecem a tolerância zero com os crimes, sejam pequenos ou grandes. Acorda, Polícia !


Caro jornalista Sidney Rezende,

Seu comentário sobre o despreparo policial, embora respeitável e importante, mostra bem o que acontece hoje em dia com relação à segurança pública, assunto sobre o qual todos acreditam poder fazer consistentes e contundentes comentários, e o pior, conhecer profundamente.
Pró-atividade não é característica específica de policial, e sim uma condição de pré-disposição de qualquer indivíduo de agir ante a possibilidade de algum evento que mereça ser executado ou evitado. A pró-atividade, que é apenas iniciativa, existe sim no meio policial, e, incrível, muito provavelmente na mesma proporção em que existe em outros grupos humanos organizados, seja da forma que for. Não sou policial militar, mas convenhamos que, diante das condições de trabalho a que estes seres humanos vem sendo expostos, em nosso estado, a pró-atividade deve sempre obedecer à uma ampla, imediata e detalhada avaliação da situação. Evidentemente, isto não se aplica a estes dois casos que você narra que, convenhamos, diante do terror do dia a dia, são "relativamente" suaves.
Pró-atividade, na ação policial, sem um criterioso estudo do caso concreto, pode e geralmente acaba resultando em graves prejuízos, senão em morte de policiais, transeuntes e bandidos, mortes estas todas, absolutamente inúteis e evitáveis.
Se o policial militar, fardado, cantou uma mulher acompanhada nas Paineiras, mais uma vez, repito, não é um problema específico de polícia. Apenas mostra que este cidadão não tem educação social e respeito pelo próximo e agiu contra a imagem de sua instituição. Este é um problema de educação do homem, de formação social, que, também convenhamos, sem fazer a defesa deste mal educado, é bem menor que o gigantesco exemplo de falta de educação e de má formação social que as autoridades, políticos e "eminentes" da nossa sociedade vêm nos obrigando a assistir nos últimos tempos. Devo acrescentar que diante do que tenho visto acontecer no senado (com "s" minúsculo sim!) da República (com "R" maiúsculo sim!), este policial, imerso no mundo de pobreza financeira, social, urbana, cultural em que vivem, infelizmente, aqueles que ganham menos de R$ 1.000,00 por mês, para sustentarem suas famílias, pode ser considerado um belíssimo exemplar de "produto do meio".
Muitos policiais reunidos, prontos para a ação, ao meu ver, formam um importante e forte grupo de intervenção capaz de fazer valer a força do estado em qualquer evento grave que demande a força policial. Como você vê, é apenas uma questão de enfoque. Quanto aos fuzís para fora das viaturas, você, aí sim, está coberto de razão, pois esta não é a posição correta de se portar fuzís dentro de viaturas, e constituem verdadeiro perigo para os policiais que ante a um ataque a esta viatura, estarão impedidos de sairem rapidamente dela, obrigando-os a puxarem o fuzil para dentro, juntarem-no ao corpo, para então poderem abrir a porta e sairem da viatura. Em momentos de confronto segundos são determinantes, e acredite, morre-se apenas por isso.
Quanto ao subúrbio, e desse entendo porque vivo aqui há 47 anos, o que falta não é efetivo, o que falta é planejamento, é investigação, é vontade de fazer. Você sabia que a Polícia Militar não tem a função de investigar?
O que desejamos, confrontos armados, com tiros de fuzil na rua, ou que os criminosos sejam presos em seus redutos, como resultado da ação de "inteligência" , de criteriosa investigação? Prezado Sidney, sou seu fã, mas discordo de você, acredito, tenho certeza, que a polícia está acordada. Não acredito que a polícia esteja acostumada com abusos e crimes, acredito sim que existem "homens com talento para "senadores"" que exercem, em desvio de função, a importante e nobre profissão de policial, e que, neste caso, mancham o belíssimo trabalho de toda a instituição.
Acredito que devamos valorizar estes trabalhadores, e sinceramente, fico feliz que, diante de um efetivo de quase 60.000 (sessenta mil) policiais no nosso estado, ganhando um dos piores salários do Brasil, morrendo todos os dias em confrontos que nada devem às ações dos "heróis" americanos no Iraque e Afeganistão, a sua queixa, meu admirado jornalista, seja a de que um homem cantou a mulher do outro e seis conversavam diante de uma viatura policial. Acorda, sociedade! Porque a Polícia está acordada 24 horas por dia, viva, nas ruas trabalhando para que possamos dormir "em paz".
Luiz Cláudio Cunha
Policial Civil e cidadão do Estado do Rio de Janeiro

Anônimo disse...

Dizem que descontraido e entre amigos e assessores "certa autoridade" declarou:
Eles logo vão esquecer esse papo de equiparação com Delegados...
Logo vão parar de encher o saco...
Nunca ganharam bem, nunca foram Deputados ou Senadores da República como eu...
Quem não nunca teve conforto não sente falta dele...
Fiquem trânquilos eu falei ontem com o Comandante deles, ele me garantiu não vai ter "porra de passeata" nenhuma...
(pausa para um trago no cigarro)
O Comandante tava com o c... na mão...ele me garantiu...
Ele sabe que se eu quizer ele roda...
Não vai ter, e se tiver exonero todo mundo!!!(soltando a fumaça do cigarro)
Eu é que mando!!!(voz alta)
Quem pagar para ver, vai ver...(voz mais alta ainda)

Anônimo disse...

E ao navegar nesse mar sem norte
Em que a luz é esmaecida
Vive-se só para esperar a morte
Que se faz mais forte
E torna frágil a vida.

Anônimo disse...

É ESSE O PINOQUIO QUE ELEGEMOS,FOI CRIADO NO SUBURBIO E AGORA QUER DESMORALIZAR A PM,PINOQUIO, NA PROXIMA ELEIÇÃO VC VAI É PARA O BURACO, VC SOMENTE ENGANA VELHINHOS E CRIANCINHAS VAI CONTAR ESTORIAS DE PAPAI NOEL SEU PINOQUIO DEFENSOR DE MACONHEIROS, GAYS ETC